Depois de dominar as bilheterias por cinco semanas consecutivas, o fôlego de Avatar: Fogo e Cinzas parece ter chegado ao fim. O novo épico de James Cameron, que recentemente foi ignorado na categoria de Melhor Filme no Oscar, acabou perdendo o primeiro lugar para um concorrente improvável: Mercy, a nova aposta da Amazon estrelada por Chris Pratt. O longa, que mistura inteligência artificial com uma narrativa mais contida, conseguiu o que muitos achavam difícil, aproveitando uma brecha no mercado e um fim de semana marcado por imprevistos climáticos.
Até este último domingo, 25 de janeiro, a jornada dos Na’vi por Pandora arrecadou cerca de US$ 378,4 milhões nos Estados Unidos e ultrapassou a marca de US$ 1,3 bilhão globalmente. Embora sejam números astronômicos para qualquer padrão normal, a comparação com seus antecessores é inevitável. Tanto o filme original de 2009 quanto O Caminho da Água (2022) romperam a barreira dos US$ 2 bilhões. Por enquanto, a terceira parte da franquia se mantém “apenas” na casa do primeiro bilhão, mostrando que o fenômeno talvez esteja encontrando seu teto.
O fator Oscar e a tempestade perfeita
A recepção da crítica e da Academia também trouxe um balde de água fria para Cameron. Pela primeira vez na trilogia, um filme de Avatar ficou de fora da disputa pela estatueta de Melhor Filme. Especialistas apontam que a vaga foi preenchida por F1, o longa da Apple TV+ com Brad Pitt que, com quase três horas de duração, serviu como uma vitrine de luxo para a categoria. Para Fogo e Cinzas, restaram as indicações técnicas, como Figurino e Efeitos Visuais.
No entanto, a derrota nas bilheterias para Mercy tem uma explicação que vai além do interesse do público. Uma forte tempestade de inverno atingiu os Estados Unidos no dia 25, deixando quase um milhão de pessoas sem energia e forçando o fechamento de mais de 400 salas de cinema. Com um orçamento e uma escala bem menores, o filme de Chris Pratt arrecadou US$ 11,2 milhões na América do Norte e outros US$ 11,6 milhões no exterior. É um valor modesto, mas suficiente para superar o gigante de Cameron, que sofreu com sua duração de 3 horas e 17 minutos — um obstáculo considerável para quem tentava encaixar uma sessão entre os alertas de nevasca.
Mas o que é, afinal, esse novo líder?
Descrito por alguns críticos como “o filme em que o Chris Pratt passa o tempo sentado”, Mercy, dirigido por Timur Bekmambetov, traz uma proposta de ficção científica mais enxuta. Pratt interpreta um detetive de Los Angeles acusado de assassinar a própria esposa, sendo julgado por um sistema de inteligência artificial que ele mesmo ajudou a implementar. Rebecca Ferguson, dando uma pausa nos desertos de Duna, vive a juíza digital que conduz o caso. Com apenas 100 minutos de duração, o filme se tornou uma alternativa rápida e acessível para quem conseguiu chegar aos cinemas.
O histórico de Cameron contra os céticos
Não é a primeira vez que James Cameron enfrenta desconfiança. Desde Titanic em 1997, o diretor é alvo de piadas pelo alto custo de suas produções e pelas durações exageradas. Em 2009, quando o primeiro Avatar estreou, o New York Times foi cauteloso, afirmando que a abertura de US$ 73 milhões “ficou abaixo das expectativas da indústria”. Na época, também houve uma tempestade de inverno que prejudicou as vendas, e muitos previam que o filme seria um desastre financeiro para a Fox.
Cameron, porém, provou o contrário com o que chamam de “poder de permanência sobrenatural”. O primeiro filme acabou acumulando US$ 2,9 bilhões ao longo dos anos. Hoje, o diretor detém três dos cinco filmes de maior bilheteria da história, dividindo o pódio com fenômenos como Vingadores: Ultimato e o chinês Ne Zha II.
Apesar de Fogo e Cinzas não ser o sucesso estrondoso que foram os anteriores, classificá-lo como fracasso seria um erro grosseiro. Ele já figura entre as maiores arrecadações do ano e deve continuar somando números relevantes nas próximas semanas. A lição que fica, década após década, é que apostar contra James Cameron costuma ser um mau negócio, mesmo quando um detetive sentado em uma cadeira e uma tempestade de neve tentam roubar o seu brilho.




