O feriado prolongado lá fora foi dominado por aquela ansiedade de “abre ou não abre” envolvendo o Estreito de Ormuz. Mas, para quem está com o dinheiro na reta, o que importa de verdade é que os petroleiros já voltaram a circular e as negociações entre EUA e Irã seguem vivas na Suíça, enquanto Paquistão e Catar aparam as arestas técnicas nos bastidores. O verdadeiro fantasma rondando as mesas de operação, no entanto, não veste farda militar. A grande dúvida é se o Federal Reserve, agora sob a batuta de Kevin Warsh, realmente abraçou uma postura mais hawkish ou se é apenas uma retórica para assustar o mercado.
Para a equipe de estrategistas do Morgan Stanley, liderada por Mike Wilson, o roteiro está se desenrolando exatamente como eles previram na época em que Donald Trump indicou Warsh ao cargo. A escolha foi cirúrgica para resgatar a credibilidade do Fed — uma peça-chave para o plano do governo de tentar crescer e sair do buraco da dívida. A prova de fogo dessa credibilidade, segundo os analistas, está estampada na relação entre o S&P 500 e o ouro, que abriu uns 40% desde a indicação de Warsh. O mercado está precificando que “há um novo xerife na cidade”. Quando Warsh foi a público criticar seus próprios colegas por terem errado a meta de inflação nos últimos cinco anos, o recado foi claro: o mandato vai ser levado a sério. Ele até soltou que costuma focar “à esquerda da vírgula” e que a meta pode ser revista no futuro, indicando que sabe da necessidade de deixar a economia rodar um pouco mais quente para dar conta da dívida, mas por enquanto, os 2% continuam gravados em pedra.
O fim da liquidez fácil
O problema é que agora vem a parte dolorosa. A liquidez, o verdadeiro combustível da farra das bolsas, está secando. O Fed já tesourou seu programa de gestão de reservas de US$ 40 bilhões para meros US$ 10 bilhões mensais, as recompras do Tesouro caíram pela metade e, para piorar, o crescimento do crédito está acelerando. O Morgan Stanley alerta que a trajetória da liquidez já é de aperto e dificilmente vai reverter, a menos que o mercado de crédito quebre ou a volatilidade dos títulos dispare. Em miúdos: o grande risco de curto prazo para as ações não é o Fed subir juros para brigar com a inflação, mas sim a falta de dinheiro circulando.
Essa seca de liquidez vai bater de frente com revisões de lucros corporativos cada vez mais tímidas, e o mercado vai testar o estômago de Warsh nas próximas semanas. O cenário dos ativos já reflete essa cautela. Os futuros americanos operam mistos, com o S&P 500 consolidado na impressionante marca dos 7.500 pontos — um salto que já passa dos 25% no acumulado de 12 meses — e o Nasdaq rompendo a casa dos 26.500 pontos, puxado pela eterna força do setor de tecnologia. Enquanto isso, o ouro recuou para os US$ 4.226, o petróleo cedeu para a faixa dos US$ 75, e o rendimento da Treasury de 10 anos beliscou os 4,49%. Na Ásia, a tecnologia de Japão e Taiwan ainda conseguiu segurar o ânimo das bolsas.
A conta chega no Brasil: O drama estrutural da CSN
Quando o custo de capital sobe lá fora e a aversão ao risco aumenta, o mercado volta a lupa para as empresas mais alavancadas. É sob essa ótica punitiva que o mesmo Morgan Stanley traça um cenário sombrio para a CSN (CSNA3). Se o investidor contava com pinga-pinga de dividendos nos próximos anos, é melhor procurar outro lugar. O banco projeta que a siderúrgica vai amargar fluxo de caixa livre negativo até 2028.
A matemática da empresa virou uma bomba-relógio. Você junta um negócio de natureza cíclica com um apetite voraz da gestão por investimentos, adiciona um nível de endividamento sufocante e coroa tudo com a obrigação de entregar minério de ferro de contratos já pré-pagos. Tudo isso enquanto a concorrência brutal no mercado de aço engessa qualquer tentativa de repasse de preços. A relação risco-retorno ficou complexa demais para justificar otimismo.
O banco passou a faca nas estimativas de câmbio e commodities do modelo da empresa antes mesmo da divulgação dos números do terceiro trimestre de 2025 (3T25). A expectativa agora é de um Ebitda de R$ 3,04 bilhões para o trimestre, um corte de 4,3% frente à projeção anterior. A escadinha de Ebitda para os próximos anos exige paciência: R$ 10,78 bilhões em 2025, subindo de forma arrastada até bater R$ 17,34 bilhões apenas em 2028.
Na última linha do balanço, o estrago é mais visível. O Lucro Por Ação (LPA) deve ficar no vermelho até 2027. Estamos falando de perdas estimadas em R$ 0,34 no trimestre atual e R$ 1,29 no ano, com o sangramento continuando em R$ 0,91 e R$ 0,63 para 2026 e 2027, respectivamente. O azul só deve aparecer em 2028, com um modesto LPA de R$ 0,89. Com base no Ebitda projetado para 2026, os papéis da CSN negociam acima da sua média histórica de cinco anos (4,5 vezes EV/Ebitda). O resultado prático? O Morgan Stanley cravou recomendação underweight (abaixo da média), com preço-alvo estacionado nos R$ 8 até meados de 2026. A ação até tentou um repique de 8% no último mês, rondando a casa dos R$ 8,42, mas a foto dos últimos 12 meses ainda mostra um rombo amargo de 30% de desvalorização.
Um mundo em transição
É um cenário global onde o menor erro de cálculo custa muito caro, e o noticiário também não dá trégua para ninguém respirar. O ambiente macro segue caótico e repleto de quebras de paradigma. Vimos Alan Greenspan, o lendário ex-chefe do Fed, falecer aos 100 anos, fechando definitivamente um capítulo inteiro da política monetária americana. No Reino Unido, a turbulência engoliu Keir Starmer, que já avisou que entrega o cargo de Primeiro-Ministro assim que o partido arrumar um substituto.
Até as tentativas de normalizar as cadeias globais esbarram na realidade física: um terminal de exportação de gás no Catar explodiu bem no momento da retomada de operações — um lembrete doloroso (e que envolve a gigante Exxon Mobil) de que religar a máquina energética mundial não é só apertar um botão.
Enquanto a maré seca para uns, o dinheiro inteligente corre para nichos específicos. A AbbVie, por exemplo, não economizou e colocou US$ 10,9 bilhões na mesa para comprar a Apogee Therapeutics e turbinar seu portfólio de imunologia. Na outra ponta, as ações da Getty Images saíram disparadas do limbo das penny stocks só porque assinaram um acordo de licenciamento de imagens com a OpenAI. O capital ainda existe, mas a régua de exigência — seja para o Fed gerenciar a economia global ou para a CSN arrumar a própria casa — subiu de vez.




